Sentada na esplanada, aconchego a gola do casaco e agito o copo de água com gás e duas pedras de gelo dentro. Molho os lábios, de vez em quando – nunca gostei de bebidas muito frias. Manifesto-o ao empregado de mesa, conhecido de longa data. E ele diz-me, como se fosse a primeira vez: na quantidade e formato certos, o gelo mantém a bebida fresca, liga ingredientes e suaviza sabores. É excelente para otimizar a bebida. Anuo.

Levanto-me e despeço-me. Saio apressada da esplanada, deixando em cima da mesa algumas moedas e o copo meio cheio. Quase faço tombar o suporte com o balde que aguarda o gelo (e o calor), para refrescar uma garrafa de vinho.

Ainda não sei o que vou fazer para o jantar.

Sigo por entre os transeuntes até ao mercado.

Peço para colocarem algumas lâminas de gelo da banca no saco do peixe. Posso usá-las nas plantas – dizem que ficam mais bonitas se forem regadas com água no estado sólido. Quem diria!

Peixe grelhado, salada e o resto do arroz de ontem. Parece-me bem! Para o arroz não ficar ressequido, é só colocar uma ou duas pedras de gelo no centro e levar ao micro-ondas.

Finalmente em casa. No fogão, a sopa retirada do congelador já borbulha. Só falta um fio de azeite. Ai!, entornei demasiado azeite. Bah!, que chatice! Era só um fio (tenho de mudar de almotolia). Já sei: vou buscar umas pedras de gelo, atiro-as para dentro da sopa para que absorvam o excesso de gordura e depois é só retirá-las antes que derretam.

Abro a porta do congelador… Oh, que azar, não tenho gelo. Paciência!

Como apressadamente, fazendo voar alguns salpicos de sopa. Uns caem sobre a minha camisola e outros sobre a mesa. Precisava de gelo (mais uma vez). Dizem que funciona bem para retirar salpicos de molho, gorduras, bebidas, tintas e chicletes da roupa e dos móveis. Hei de experimentar. Se assim for, é simples, económico e eficaz.

BARUUUM! Assusto-me com o trovão e com a saraiva a chicotear a vidraça. Só de pensar que ainda há pouco era verão e eu colocava um saco de gelo em frente à ventoinha para me refrescar…

Termino o jantar com uma maçã e meto a louça na máquina. Limpo a pia da banca; parece-me que há excesso de gordura na canalização. Amanhã experimento a receita: gelo sobre o ralo e água fria a correr, a ver se funciona.

Coloco as cuvetes cheias de água no congelador. Amanhã poderei precisar de gelo também para diminuir olheiras e inchaços, melhorar a circulação e fechar os poros; para uma pele mais bonita e renovada. Dizem que, no abdómen, reduz a gordura. Nunca experimentei.

Ai! Ui!, não devia ter deixado a porta  da máquina de lavar louça meio aberta. Não tenho gelo para aliviar a dor e o inchaço da canela da minha perna. Uso ervilhas congeladas, embrulhadas num resto de lençol velho, guardado ali à mão para esse efeito. Sinto logo um alívio. Crioterapia; muito eficaz nestas situações. 

Sento-me finalmente no sofá e coloco a manta sobre as penas: está um gelo! A televisão mostra imagens belíssimas do norte do país: sincelo. (Uau! Uma imagem belíssima para quem está no sofá). Não é neve, explicam (de uma forma simples): é resultado da congelação do nevoeiro.

Agora falam da geada. Parece que ainda ouço a minha professora: a geada não cai! Não digam que está uma camada de neve, quando afinal é geada!; e a minha avó: cuidado, está tudo cheio de codo, escorrega muito!

Ah, e lembro-me tão bem das estalactites de gelo, muitas vezes, com uma erveira dentro, que nem âmbar, que a criançada partia e chupava , segurando ora numa mão ora na outra, para aliviar o frio. Gelado de graça, para todos.

Deixo estes pensamentos irem à sua vida e atento de novo no ecrã. As previsões do tempo apontam para neve nas terras altas. Que saudades do tempo em que todos os invernos traziam uma camada de neve à aldeia, e dos enormes bonecos que fazíamos. Restam as fotografias, as memórias desse tempo e da sabedoria da avó:  uma boa camada de neve é oiro para a terra (o frio ajuda a quebrar o ciclo de várias pragas, evitando assim que se manifestem e causem danos nas culturas)!

Ui, o que a geada negra fez àquelas culturas. Tudo queimado! Que prejuízo! Espero que não aconteça por aqui; que não dê cabo das couves galegas da minha hortinha.

ATENÇÃO ao gelo negro, nas estradas. Circular com precaução, recomenda-se – é sempre importante relembrar.

As notícias atravessam já fronteiras: falam de glaciares,  geleiras, icebergues, banquisas, campos de gelo, bancos de gelo; para chegar ao aquecimento global.

Do ecrã saltam agora imagens de gelo seco (que na verdade não é água no estado sólido) e da sua utilização para conservar materiais ou substâncias a baixas temperaturas; ou para efeitos  de «fumo» em casamentos e outras festas – fica sempre bem na fotografia.

Desligo a televisão. Pela janela entra um luar de prata – e ainda há pouco saraivava. Não há luar como o de janeiro, mas lá vem o de agosto que lhe dá pelo rosto. De vez em quando passa uma nuvem e esconde a lua. Era capaz de apostar que são nuvens de gelo – cirrus, cirrocumulus e cirrostratus. Mas não sei; confesso que não sei identificar nuvens.

Dirijo-me à estante. Tenho de escolher um livro. Fico indecisa: A formiga e a neve, A branca de neve, A rainha das neves, A princesa da neve, A Lenda das amendoeiras em flor, O príncipe feliz, O boneco de neve… Amanhã inicio o clube de leitura e talvez leve uma pedra de gelo para o quebra-gelo, para ficarmos todos mais à vontade.

 

Já a noite ia alta quando adormeci, depois de ler O Livro Azul do Verão.

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